Mesas Redondas

Fernando Severo (UFRJ), Henrique Cukierman (UFRJ), Isabel Cafezeiro (UFF), Ivan da Costa Marques (UFRJ)

A década de 1980 marcou a entrada da antropologia nos laboratórios, quando as “tribos” dos profissionais modernos, especialmente aquelas dos cientistas, engenheiros, médicos e economistas, passaram a ser estudadas a partir de suas práticas cotidianas, ensejando um entendimento de todas as entidades (objetos, sujeitos, coisas, pessoas) que habitam nossos universos cognitivos como justaposições provisionais de elementos heterogêneos. Este linguajar está muito cifrado? Esotérico? Pois bem, um de seus possíveis resumos é: afirmar “isto é uma questão técnica” é um ato político.

A partir desse entendimento, só aparentemente esotérico, esta mesa pretende colocar em questão algumas situações da vida cotidiana dxs brasileirxs em meio ao que temos: escola, museu, hospital, transporte, moradia, pesquisa, polícia, justiça, higiene, cozinha, trabalho, esporte e diversão. Partimos da percepção de que o mundo da vida, o mundo em que trabalhamos e gozamos, em que suamos, amamos e odiamos não é separável de nossos universos cognitivos e tampouco há ação em um mundo puramente conceitual ou feito de “abstrações”. Para cumprir o prometido, vamos nos alicerçar materialmente nas interações de brasileirxs com artefatos de computação-comunicação. As situações que propomos discutir estão entre as seguintes:

  1. O programa bolsa família e a inclusão do pobre em um banco de dados:  o dado não é uma dádiva
  2. A urna eletrônica e as opções de voto no Brasil
  3. A negociação da aritmética nos cálculos da prestação da sua casa
  4. Automação e a divisão social-internacional do trabalho
  5. Inclusão digital no Brasil: o que conta e o que não conta como inclusão
  6. O SUS e as informações em saúde: as promessas tecnicistas do software
  7. Software livre: todo mundo pode mesmo por a mão?
  8. Estudante emancipado e ubiquidade informacional: indicadores educacionais e sentimentos de futuro em um curso de Engenharia de Computação e Informação.

Daniela Tonelli Manica (UFRJ), Fabíola Rohden (UFRGS), Débora Allebrandt (UFAL)

A proposta dessa mesa é apresentar perspectivas contemporâneas sobre os agenciamentos que envolvem corpo, gênero e tecnociências. Procuramos discutir o engajamento específico de elementos frequentemente generificados (hormônios sexuais, endógenos e sintéticos, órgãos reprodutivos, fluidos corporais) nas dinâmicas contemporâneas da tecnociência, da biomedicina e do mercado farmacêutico. A partir de recortes empíricos distintos, procuraremos demonstrar o processo de constituição de um aparato tecnocientífico, frequentemente em relação intrínseca com a comercialização farmacêutica e biomédica. Este processo produz não apenas conhecimento sobre os corpos, como formas possíveis de ação destes, engajados com as tecnologias que são imaginadas, testadas e formatadas para determinados propósitos (contracepção, reposição hormonal, efeitos sobre a sexualidade e a reprodução, o corpo e o gênero, e terapias biomédicas diversas). Essas temáticas serão tratadas, especificamente, a partir de pesquisas sobre o uso de testosterona sintética sobre sexualidade e gênero, o universo da reprodução assistida e o campo de pesquisas com células-tronco mesenquimais no sangue menstrual. Propomos, assim, pensar os diversos fluxos de substâncias que atravessam corpos, e sua possível plasticidade, a partir de um enfoque privilegiado sobre a questão de gênero.

Adriano Premebida (UFRGS), Lorena Fleury (UFRGS), Paulo Fonseca (UFRB), Fabrício Neves (UNB)

Esta mesa discutirá a relação entre políticas neodesenvolvimentistas, em voga nos últimos 15 anos no Brasil, e sua relação com controvérsias em âmbitos variados como produção de energia, nanobiotecnologia e meio ambiente. O neodesenvolvimentismo como política de Estado visou em específico fomentar a atividade econômica por meio de incentivos a grandes empreendimentos, como engenharias e agricultura. No entanto, tais empreendimentos trouxeram uma série de controvérsias relacionadas à preservação ambiental, direitos indígenas, tecnologias de custeio, visões de mundo e o lugar da ciência na sociedade. Diante desse quadro irresoluto de questões, visões de ciência e tecnologia entraram em debate, cujo cerne transcendia o contexto mais específico da produção sociotécnica e alcançava toda a sociedade. Buscamos assim um relato empiricamente fundamentado para apresentar um quadro diverso das controvérsias mobilizadas recentemente.

Tiago Ribeiro Duarte (UNB), Sineia Bezerra do Vale, (Comitê Indígena de Mudanças Climáticas e Comitê Indígena de Roraima), Telma Marques da Silva (Comitê Indígena de Mudanças Climáticas e União das Mulheres Indígena da Amazônia Brasileira), Alessandro Roberto de Oliveira (UNB)

Os povos indígenas brasileiros têm acumulado ao longo dos séculos uma série de conhecimentos sobre as mudanças ambientais em seus territórios. Estes conhecimentos, guardado por anciões, xamãs, lideranças e outros membros das diferentes povos, possuem grande potencial para interagir com as ciências ocidentais de modo a se produzir diagnósticos locais e regionais relacionados às mudanças climáticas. Além disso, esses saberes são fundamentais para a elaboração de políticas climáticas voltadas para populações indígenas. Todavia, tanto a comunidade científica como formuladores de políticas possuem, em geral, pouco interesse em interagir com populações indígenas de modo a formular de modo dialógico conhecimento e políticas públicas vinculadas às mudanças do clima.

Similarmente, nos Estudos Sociais da Ciência e Tecnologia, apesar da expansão recente de estudos sobre saberes locais e ciência cidadã, pouca pesquisa tem sido dedicada a conhecimentos e tecnologias indígenas, assim como à integração (ou não) destes/as em processos de formulação de políticas públicas. O objetivo desta Mesa Redonda é discutir as potencialidades dos conhecimentos indígenas para se lidar com as mudanças climáticas; a constante invisibilização destes saberes em processos de elaboração de políticas para o clima; as dificuldades de se integrar conhecimentos científicos e indígenas; e as mudanças climáticas sob a perspectiva dos povos indígenas brasileiros.

Rafael Cordeiro-Rodrigues (Universidade do Estado do Pará), Licurgo Peixoto de Brito (Universidade Federal do Pará), Sebastião Rodrigues-Moura (Instituto Federal do Pará), Alexandre Guimarães Rodrigues (Universidade Federal do Pará)

A presenta mesa redonda apresenta dados de investigações de professores-pesquisadores e professores em formação que atuam em grupos de estudos e pesquisas na Amazônia com especificidades da formação de professores de ciências no estado do Pará com abordagem CTS/CTSA. A primeira apresentação trará o delineamento de experiências pedagógicas exitosas na Amazônia para a formação docente com vistas à qualificação profissional e comprometimento social da região no contexto local, regional e global. A segunda constitui-se de um trabalho investigativo sobre a formação de professores de ciências com ênfase em CTS/CTSA em instituições de ensino superior no contexto amazônico-paraense. A terceira será fomentada por meio de discussões úteis acerca de abordagens teórico-metodológicas com vistas à alfabetização científica e técnica na formação docente em CTS/CTSA. Tais reflexões coadunam de maneira mais geral com os elementos formativos das orientações curriculares das legislações nacionais de formação de professores e interpõem possibilidades interpretativas ao contexto nacional em sua função como elemento de abordagens didático-pedagógicas. Dessa forma, o objetivo desta proposta é debater, socializar e fomentar experiências pedagógicas de formação de professores-pesquisadores em ciências com vistas às reflexões em CTSA/CTSA, bem como mostrar a relevância de experiências, em contexto amazônico, subsidiada por agência de fomento da pesquisa e grupos de estudos na região.

Guilherme José da Silva e Sá (UNB), Graciela Froehlich (UnB), Natacha Simei Leal (UNIVASF), Ivana dos Santos Teixeira (UFRGS)

A mesa pretende promover o debate em torno da constituição dos saberes acerca dos animais a partir de apresentações de três pesquisas antropológicas baseadas em experiências etnográficas. Com esse intuito, a mesa orienta-se em três eixos de discussão, a saber, ciência e tecnologia, o mercado e a noção de cuidado.

Graciela Froehlich caracteriza que as perguntas dirigidas aos animais influenciam diretamente nas imagens que construímos deles (Despret, 2012). As teorias do comportamento animal funcionam como matrizes narrativas que geram histórias não inocentes: ao inscrever determinados fatos, outros são ocultados. Assim, propõe-se a refletir acerca das “matrizes narrativas” construídas pela ciência do bem-estar animal, colocando-a em diálogo com a experiência de campo em fazendas de criação de gado de corte.

Natacha Leal parte de pesquisas realizadas em duas tradicionais zonas pecuárias nacionais, de um lado a rica bovinocultura do centro-sul brasileiro especializada no gado zebu e, de outro lado, a bovinocultura do sertão do Piauí que aposta na criação de espécimes mestiços. Nesta apresentação pretende-se comparar distintas tecnologias de seleção e melhoramento, que ao produzirem enunciados polivalentes sobre purezas ou misturas de sangues dos rebanhos, engendram mercados, saberes e políticas de criação.

Por sua vez, Ivana Teixeira analisa o trabalho desenvolvido pelos Terapeutas de Zooterapia em parceria com os Animais Terapeutas,  siuando-o em um corpus de conhecimento apoiado numa etnografia da técnica terapêutica chamada Terapia Assistida por Animais (TAA), que entende o   tratamento de doenças humanas contemporâneas para além de uma constatação trivial entre diferentes espécies animais e de projeções antropomórficas universalmente reconhecidas.